Por que troquei o carro pela bicicleta em Curitiba
Depois de três anos de pedais diários, conto os perrengues, os ganhos e o que ninguém te conta sobre morar numa cidade plana demais para ser verdade.
Tem uma coisa que ninguém me avisou antes de trocar o carro pela bicicleta. Ninguém disse que eu ia sentir falta do silêncio do carro. Não do conforto, do ar-condicionado, do rádio. Do silêncio. No carro, você está dentro de uma bolha. Na bicicleta, você está no meio de tudo. E no meio de tudo, escuta — o motor do ônibus atrás, a briga do casal na calçada, o vendedor gritando banana. Foi a primeira coisa que percebi quando troquei, e talvez a mais importante.
Moro em Curitiba há oito anos. A cidade é famosa por ser planejada, mas o que planejaram foi o carro, não a bike. As ciclovias existem, sim, mas costumam acabar do nada, virar calçada, sumir numa esquina. Para quem pedala todo dia, isso vira rotina: a gente aprende os atalhos, os trechos perigosos, os horários em que dá pra ir tranquilo. Não é uma cidade hostil. É uma cidade que ainda não decidiu se quer a gente.
O começo
A troca não foi ideológica. Foi preguiçosa. Um dia o carro foi pra oficina e ficou lá duas semanas. Precisava ir ao trabalho. Olhei a bicicleta encostada no cantinho, empoeirada, e pensei: por que não? Fui. Cheguei suado, meio sem fôlego, mas com uma sensação estranha — de ter chegado de verdade, de ter atravessado a cidade no meu ritmo.
O carro me levava pela cidade. A bicicleta me mostrou a cidade.
Quando o carro ficou pronto, eu já não queria voltar. Vendi. Comprei uma bike melhor. Nunca me arrependi. Mas também não sou desses ciclistas-evangelistas que acham que todo mundo tem que pedalar. Cada um com sua vida. Só digo o que mudou na minha.
O que melhorou
Melhorou tudo que se mede em corpo. Durmo melhor. Respiro melhor. Subir ladeira virou coisa normal. O banco da bicicleta, esse sim, é inimigo — tem dia que chego em casa precisando de um milagre. Mas no conjunto, o corpo agradece. E a cabeça também.
Melhorou também a relação com o tempo. No carro, o tempo de trajeto era tempo perdido — eu queria acabar logo. Na bicicleta, o trajeto é parte do dia. Penso enquanto pedalo. Às vezes, chego no trabalho já com a ideia pronta. Outras, chego só com as pernas cansadas. Mas sempre chego mais vivo do que saí.
O que piora
Chove, e chove muito em Curitiba no verão. Tem dia que a gente molha até a alma. Tem dia que o vento corta. Tem dia que algum motorista passa perto demais e a gente fica com raiva o resto da manhã. Não é romântico. É cansativo, às vezes perigoso, e exige atenção o tempo todo. Quem acha que pedalar é só paz e natureza nunca pedalou numa avenida grande no horário de pico.
Há também a questão prática. Não dá pra levar muita coisa. Compras viram logística. Viajar de bike é outra conversa. Para mim, que moro sozinho e trabalho perto, funciona. Para quem tem três filhos e mora longe, talvez não. Cada caso é cada caso.
O que ninguém te conta
O que ninguém me contou é que eu ia conhecer a cidade de um jeito que o carro não deixava. Ia saber o nome das ruas, o cheiro dos bairros, a hora em que a padaria abre. Ia cumprimentar o frei que pedala de batina, a aposentada que leva o cachorro na cestinha, o cara que construiu uma bike com som. Ia fazer parte de uma comunidade invisível que só anda de bike.
Curitiba é plana, é verdade. Isso ajuda. Mas o que segurou a troca não foi o relevo. Foi descobrir que a cidade, vista devagar, é outra. O carro me levava pela cidade. A bike me colocou dentro dela. E dentro dela, para minha surpresa, eu cabia melhor.