A casa da minha avó e o cheiro de que a cidade perdeu
Sobre entrar num lugar que não mudou e descobrir que foi a gente que mudou.
A casa da minha avó fica num bairro antigo de Curitiba, num terreno grande, com fundo de quintal e pé de jaboticaba. Quando eu era criança, achava aquela casa enorme. Voltei lá semana passada, depois de muito tempo sem entrar, e a primeira coisa que reparei foi que ela tinha encolhido. Não. Fui eu que cresci. Essa descoberta banal me ficou o dia inteiro na cabeça.
A casa não mudou. A jaboticabeira continua lá. A cozinha ainda tem o mesmo azulejo, o mesmo cheiro de café passado, o mesmo barulho de rádio ligado no volume errado. A vó continua sentada na mesma cadeira, com o mesmo cobertor no colo, mesmo agora fazendo calor. Tudo igual. E, ao mesmo tempo, tudo outro.
O cheiro
Tem um cheiro na casa da minha avó que eu não encontro em mais lugar nenhum. Não sei nomear. É café, é sabão, é jaboticaba madura, é o tempo parado. Quando entro lá, sinto antes de ver. E nesse sentir, volto. Volto pra quando tinha dez anos, achava a casa enorme, e o maior problema era decidir se subia na jaboticabeira ou não.
Cheiro é a memória mais teimosa. A gente esquece o que viu, mas nunca o que cheirou.
A cidade, lá fora, perdeu cheiros. As padarias não cheiram mais a padaria. Os ônibus cheiram a nada. As ruas cheiram a escapamento. A casa da minha avó é um dos últimos lugares onde ainda existe um cheiro próprio. E talvez por isso eu volte lá tanto — não pela vó só, embora seja por ela também. Volto pelo cheiro de um tempo que não existe mais fora dali.
O tempo
A vó tem noventa e poucos. A cabeça funciona, o corpo demora. Conversamos devagar, porque ela demora. E nesse demorar, descubro que eu vivo rápido demais. Entre uma frase e outra dela, eu já pensei em cinco coisas, decidi três, me distraí duas. Ela está no segundo assunto. Eu já estou no nono. E aí percebo que é ela quem está no ritmo certo.
Andar devagar é uma sabedoria que a cidade esqueceu. Tudo é urgência, tudo é agora, tudo é depois-a-gente-vê. A vó não. A vó faz uma coisa de cada vez. E, fazendo uma coisa de cada vez, faz cada coisa com atenção. Eu, que faço dez ao mesmo tempo, não faço nenhuma direito.
O que levo
Saí da casa da vó no fim da tarde. Na porta, ela me disse pra voltar logo, como sempre diz. Caminhei até o ponto de ônibus pensando no quanto aquela casa, e aquela mulher, eram um pedaço de tempo guardado. Um pedaço que ainda resiste. Um dia vai sumir — a casa, a árvore, o cheiro, a cadeira, a vó. Mas, por enquanto, está lá. E eu, cada vez que entro, saio um pouco mais devagar.
Talvez seja essa a função das casas das avós. Não nos receber. Nos lembrar de que existe outro ritmo. E que esse ritmo, apesar de tudo, ainda é possível.